Logo Lamar







Ecoansiedade: um olhar amazônico sobre o medo do futuro climático

Pesquisa mostra que 39% dos jovens brasileiros têm receio de ter filhos por causa das mudanças climáticas — reflexo da ansiedade ambiental que cresce em regiões como o Pará e Rondônia

Quase 4 em cada 10 jovens brasileiros pensam duas vezes antes de ter filhos por medo do futuro climático. O dado, revelado por uma pesquisa internacional publicada na revista The Lancet Planetary Health, escancara o impacto emocional da crise ambiental, que ultrapassa o campo científico e político e alcança a saúde mental. Na Amazônia, onde secas, queimadas e cheias extremas já fazem parte da realidade, a ecoansiedade se traduz em angústias diárias, insegurança sobre o amanhã e mudanças no modo como as pessoas se relacionam com o território e com a natureza.

- Advertisement -

Em Belém, capital paraense, a ansiedade climática se manifesta em períodos de estiagem prolongada, ondas de calor extremo e eventos como enchentes repentinas. Esses fenômenos se somam a um cenário urbano desigual, com periferias pouco arborizadas, mal ventiladas e mais expostas às consequências das mudanças do clima. O psicólogo Robert Rodrigues, professor da Wyden, aponta que o aumento da frequência de queimadas, enchentes e picos de calor tem provocado medo, frustração e sensação de impotência na população. Segundo ele, “quando o planeta adoece, as pessoas adoecem juntas”.

Na zona ribeirinha de Belém, um exemplo recente da vulnerabilidade das comunidades à crise ambiental ocorreu na Ilha do Combu. Devido à intensificação da erosão provocada pela elevação do nível do rio, a região passará a receber monitoramento constante da Defesa Civil. A medida é resultado de uma mobilização popular que denunciou a situação crítica enfrentada por moradores das localidades de Paciência, Piriquitacuara e Murutucum.

Rodrigues observa que o sofrimento causado por esses eventos extremos deixa marcas profundas na saúde mental das pessoas, que passam a temer o próximo desastre e a perder a esperança de estabilidade. Para ele, compreender a saúde mental em tempos de emergência climática exige atenção ao território e ações que fortaleçam o vínculo das pessoas com a natureza, por meio de hortas comunitárias, jardins suspensos e educação ecológica popular.

O psicólogo chama atenção para o contraste entre realidades simultâneas no país: enquanto o Sul enfrentava trágicas enchentes em 2024, a Amazônia vivia uma das maiores estiagens da história recente. O Rio Madeira, em Rondônia, secou completamente, e outros rios no Pará também foram afetados, dificultando a pesca artesanal e a mobilidade das populações ribeirinhas. Em Santarém, no oeste paraense, a fumaça das queimadas encobriu a cidade por semanas, gerando doenças respiratórias e um medo constante de que tudo se repetisse.

Ele reforça que essas consequências não se devem apenas ao clima, mas ao desmatamento, às queimadas, ao assoreamento dos rios e ao modelo de produção capitalista que intensifica a destruição ambiental. Rondônia, inclusive, já está entrando novamente no chamado “verão amazônico” — período de estiagem que se estende de junho a novembro. É nessa estação que, por causa das chuvas escassas e das temperaturas elevadas, as condições se tornam mais propícias à propagação do fogo.

O biólogo Bruno Esteves Conde, professor da Estácio, complementa a análise ao destacar que a destruição ambiental ameaça modos de vida inteiros na Amazônia. Povos indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares veem seus territórios e saberes em risco, o que gera sentimentos de perda, revolta e o que ele chama de “luto ecológico” e “solastalgia” — a dor de ver o lugar onde se vive se transformar de forma irreversível.

A pesquisa da The Lancet não é a única a apontar o impacto emocional da crise ambiental. Um levantamento da consultoria Nexus, encomendado pelo Movimento União Brasil, revelou que 82% dos brasileiros com mais de 16 anos já ajudaram vítimas de desastres naturais. Contudo, 77% nunca tomaram medidas para se proteger de tragédias climáticas e metade da população não sabe onde buscar informações em caso de emergência. Os dados revelam que, apesar da solidariedade, ainda falta preparo e acesso a informações claras e acessíveis.

Em Belém, onde projeções do Climate Impact Lab indicam que a cidade pode se tornar a segunda mais quente do mundo até 2070 — com mais de 200 dias por ano de calor extremo —, a juventude das periferias é especialmente vulnerável. Vivendo em territórios já marcados pela falta de saneamento, moradia digna e acesso à educação, esses jovens enfrentam múltiplos medos que vão do desemprego à crise ambiental.

Apesar dos desafios, o engajamento coletivo tem mostrado caminhos possíveis. A exemplo disso, após a tragédia no Rio Grande do Sul, instituições como Wyden, Estácio, Ibmec e IDOMED se uniram em uma campanha nacional de arrecadação de donativos, mobilizando estudantes, docentes e colaboradores para doações de alimentos, roupas, água e produtos de higiene. Para Rodrigues, esse tipo de mobilização também é cuidado em saúde mental, pois transforma o medo em ação.

Bruno Esteves defende o fortalecimento da ciência cidadã e a valorização dos saberes tradicionais. Iniciativas como agroflorestas produtivas, brigadas comunitárias contra o fogo e o uso de tecnologias indígenas no monitoramento territorial mostram que é possível promover desenvolvimento sem destruir a floresta. A educação ambiental, segundo ele, precisa dialogar com as juventudes amazônidas e mostrar que é possível viver da floresta, cuidando dela.

Mais notícias sobre cidades de Rondônia






Homem é morto a facadas e pedradas após discussão entre vizinhos. VEJA VÍDEO

Um homem de 49 anos foi brutalmente assassinado na noite de quinta-feira (19), no bairro Boa Esperança, em Ibatiba, região do Caparaó, no Espírito...

IMAGENS FORTES! Idosa fica gravemente ferida após ataque de dois pitbulls.VEJA VÍDEO

Uma idosa de 69 anos ficou gravemente ferida após ser atacada por dois cães da raça pitbull na manhã desta segunda-feira (23/02/2026), na Travessa...

TRAGÉDIA FAMILIAR: Neta é suspeita de matar avô e tentar assassinar avó a tiros em zona rural de Rondônia

Uma jovem identificada como L. dos S, é apontada como a principal suspeita de matar o avô, José dos Santos, e tentar matar a...
Pular para a barra de ferramentas