Em um município com pouco mais de 18 mil habitantes, onde grande parte da população sobrevive com cerca de R$ 2 mil por mês, os gastos da Câmara Municipal de Alvorada do Oeste com diárias em 2025 causam indignação e levantam sérias dúvidas sobre responsabilidade com o dinheiro público.
Dados do Portal da Transparência mostram que os nove vereadores receberam, juntos, R$ 478 mil apenas em diárias ao longo do ano. O valor corresponde a 74% de todo o gasto da Câmara com viagens, que ultrapassou R$ 646,5 mil — incluindo também 21 servidores.
O contraste é evidente e difícil de justificar. Enquanto a população enfrenta dificuldades básicas, os parlamentares acumulam despesas elevadas com deslocamentos, sem que haja transparência suficiente sobre os resultados práticos dessas viagens.
Os salários já estão entre os mais altos da realidade local. O presidente da Câmara recebe cerca de R$ 8.865 mensais, enquanto vice-presidente e secretários ganham aproximadamente R$ 7.865. Os demais vereadores recebem em torno de R$ 7.365, considerando auxílios. Ainda assim, os valores pagos em diárias elevam significativamente os rendimentos.
Entre os que mais receberam recursos estão:
• Adãozinho Moura: R$ 73.539,52
• (Ederson da Sillva)Neguinho da Tancredópolis: R$ 72.413,00
• Aldione de Andrade: R$ 70.913,00
• Maílson de Oliveira: R$ 67.536,34
• Diego Uesllei de Souza: R$ 61.158,55
• Uelinton de Oliveira: R$ 61.157,93
• Geraldo da Vitória: R$ 45.024,32
• Osmar de Jeus: R$ 17.259,36
• Oscar de Oliveira: R$ 9.004,80
A discrepância fica ainda mais evidente quando comparada à folha de pagamento da própria Câmara, que gira em torno de R$ 170 mil mensais. Em outras palavras, o valor pago apenas em diárias aos vereadores seria suficiente para bancar mais de três meses de salários de toda a estrutura do Legislativo.
Outro ponto que agrava a situação é a comparação com a Prefeitura. Com cerca de 446 servidores, o Executivo gastou aproximadamente R$ 558 mil em diárias — menos do que a Câmara, que possui apenas 29 pessoas em sua estrutura. A diferença levanta questionamentos sobre critérios, necessidade e controle dessas despesas.
Além disso, não há detalhamento claro sobre gastos com passagens aéreas e terrestres no Portal da Transparência. A ausência dessas informações impede uma análise completa e pode esconder um custo ainda maior para os cofres públicos.
Em um cenário de limitações orçamentárias e demandas urgentes nas áreas de saúde, infraestrutura e assistência social, os números revelam uma desconexão entre o poder público e a realidade da população.
Mais do que cifras elevadas, o que está em jogo é a confiança da sociedade. A falta de transparência, aliada a gastos considerados desproporcionais, reforça a sensação de que o controle sobre o uso do dinheiro público é falho.
Diante disso, a pergunta que ecoa entre os moradores é direta e incômoda: até quando esse tipo de prática será tratado como normal — e quem, de fato, está fiscalizando os fiscalizadores?




