
Existe uma pergunta que quase nunca fazemos quando discutimos a baixa participação das mulheres na política: quanto tempo uma menina ou uma mulher tem, de fato, para participar da vida pública?
Por Fabricia Lopes
A pesquisa da Fiocruz sobre a sobreposição de atividades na juventude ajuda a responder. O dado é direto e deveria causar desconforto:
“Entre as estudantes de 18 a 24 anos, 21,5% (802 mil) acumulam estudos e trabalho de cuidado, sendo que 9,1% (340 mil) somam a essas duas jornadas uma terceira: o trabalho remunerado.”
É isso. Aos 18 anos, enquanto muitos jovens começam a construir seus projetos de vida, centenas de milhares de mulheres já estão tentando equilibrar estudo, cuidado e trabalho remunerado. E ainda esperamos que elas encontrem tempo para reuniões, movimentos sociais, partidos, debates, campanhas e participação política.
Talvez seja por isso que a pergunta não deveria ser apenas “por que tão poucas mulheres participam da política?”. A pergunta deveria ser: como elas conseguiriam participar, se já estão sobrecarregadas antes mesmo de chegar aos espaços de poder?
A política exige presença. Exige tempo para estudar propostas, participar de reuniões, construir redes, ocupar espaços, disputar ideias e, principalmente, ser vista. Quem está sempre correndo para cumprir três jornadas dificilmente consegue correr também atrás de uma candidatura.
E aqui está a ironia: a sociedade cobra mais mulheres na política, mas continua tratando o cuidado como se fosse uma tarefa naturalmente feminina. Depois, olha para os espaços de poder e pergunta, quase surpresa: “Cadê as mulheres?”
Em Rondônia, essa realidade também aparece na representação política. Houve avanços importantes e hoje há cinco mulheres entre os deputados estaduais, mas elas ainda são minoria em uma Assembleia composta por 24 parlamentares.
Mais preocupante é pensar no futuro: quantas meninas rondonienses estão sendo preparadas e estimuladas para ocupar esses espaços? Quantas conseguem participar de grêmios estudantis, movimentos sociais, organizações comunitárias, partidos e juventudes partidárias enquanto conciliam estudo, trabalho e responsabilidades domésticas?
A ausência de mulheres jovens na política não pode ser interpretada simplesmente como falta de interesse. Também é resultado de uma sociedade que distribui o tempo de maneira profundamente desigual.
Não adianta abrir a boca e dizer “entrem”. É preciso garantir que elas tenham condições de chegar até ela.
Porque democracia também é tempo. E, enquanto algumas meninas precisam escolher entre estudar, trabalhar, cuidar ou participar, talvez o problema não esteja na falta de vontade delas.
Talvez elas simplesmente estejam ocupadas demais tentando dar conta de tudo.
Fonte: https://fiocruz.br/sites/fiocruz.br/files/documentos_2/1.1.%20Informativo%20-%20Superposição%20de%20Atividades%20na%20Juventude%20-%20Estudar%2C%20Trabalhar%20e%20Cuidar%20-%20SNCF%20e%20AJF%20-%2029%2006%202026%20%281%29.pdf
Fabrícia Lopes é natural de Porto Velho, tem 27 anos, é formada em Licenciatura em História pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR), pós-graduada em Gestão Escolar pela Universidade de São Paulo (USP) e atualmente é mestranda no Programa de Pós-Graduação em História da Amazônia (PPGHAm). Compõe a coordenação estadual do Levante Popular da Juventude. Além disso, é comunicadora social e pesquisadora, dedicando-se especialmente aos temas relacionados à educação, às lutas sociais e às representações étnicas na Amazônia.


